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*Manuel Correia de Andrade, historiador e geógrafo, é
da Academia Pernambucana de Letras
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O plano do discurso, as justificativas do presidente
George W. Bush para acabar com o ditador Saddam Hussein
concentram-se no suposto arsenal de armas de destruição em
massa do Iraque – construído, aliás, com uma mãozinha de
Washington no passado. Nesse sentido, as negociações políticas
para a guerra contra Bagdá avançam a passos largos. O
presidente americano conseguiu na quarta-feira 2 de outubro de
2002, uma carta branca da Câmara dos Deputados para atacar o
Iraque. Agora a Casa Branca negocia com a França, Rússia e
China –membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU
e, portanto, com direito a veto – uma segunda resolução
que autorize o uso de força contra Bagdá.
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Ninguém dúvida do perigo que Saddam Hussein representa, mas, nos
bastidores, o debate é outro. Uma vez o ditador fora do
poder, o que será feito com o ouro negro iraquiano, a segunda
maior reserva de petróleo no mundo, depois da Arábia
Saudita, com 112,5 bilhões de barris ou 11% da reserva
mundial?
Isso sem falar que o Iraque supostamente esbanjaria uma reserva
adicional de 215 bilhões de barris ainda não explorados. Não
é mera coincidência que em Houston, no Texas, Estado de
Bush, as maiores companhias petrolíferas da Rússia e dos EUA
se reuniram nos dias 1º e 2 de outubro de 2002, pela primeira
vez, para a Cúpula Comercial de Energia EUA-Rússia. As
empresas petrolíferas russas Lukoil e Slavneft, assim como as
da China (o terceiro consumidor de óleo bruto depois dos EUA
e Japão) e da França estariam de olho nos campos iraquianos.
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Antes da guerra do Golfo (1991), o Iraque produzia cerca de três
milhões de barris por dia. Desde 1996, o embargo imposto pela
ONU autoriza no máximo 1,4 milhão de barris diários, para
trocar por alimentos e medicamentos. Além disso, dos 73 poços
de petróleo que o Iraque possui, apenas 24 estão
operacionais.
Mas, em 1998, antes de os inspetores da ONU serem expulsos do Iraque,
as sanções ao país foram relaxadas por interesses econômicos.
Os EUA são, de longe, os maiores consumidores de petróleo,
com 26% do total mundial. Estima-se que a demanda global cresça
de 77 milhões de barris para 115 milhões em 2020.
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Em 2001, antes do atentado de 11 de setembro, o vice-presidente Dick
Cheney já havia proposto uma “reformulação” das sanções
contra o Iraque, Irã e Líbia, países hoje na lista do
“eixo do mal”, mas que possuem juntos cerca de um quarto
das reservas mundiais. Cheney foi secretário da Defesa de
Bush pai na guerra do Golfo e, logo depois, diretor da
Halliburton, uma das maiores empresas petrolíferas
americanas. Conhece, portanto, muito bem o ouro negro
iraquiano. Em 1998, duas subsidiárias da Halliburton
assinaram acordos de US$ 24 milhões com o hoje “ditador
mortífero”. A Halliburton comprou a Dresser Industries, que
fornece produtos da indústria petrolífera e é ligada à família
Bush.
Enquanto gigantescas empresas petrolíferas européias, como a
British Petroleum e a Royal Dutch Shell, se preparam para se
livrar da dependência do combustível fóssil procurando
alternativas energéticas como o hidrogênio, alguns países
europeus ignoram as sanções e fazem acordos com o Iraque.
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A Rússia estabeleceu em julho deste ano a compra avaliada em US$ 270
milhões. “Cada um está marcando seu território”, disse
um empresário russo em Houston. A Espanha, que tem o
primeiro-ministro conservador Jose María Aznar apoiando um
ataque contra Saddam Hussein, assinou contratos com Bagdá
para a exportação de 1,2 milhão de barris diários de petróleo
para os próximos dois meses. Atualmente o Iraque exporta 1,1
milhão de barris por dia, mas, se o embargo acabasse, a produção
do ouro negro poderia ser dobrada, segundo o ministro do Petróleo
iraquiano, Amir Rashid.
No último ano, o preço do petróleo subiu 40%, quase atingindo US$
30 por barril no mercado de Londres. Acredita-se que o preço
suba ainda mais em caso de conflito. Afinal, mais da metade
das reservas mundiais de petróleo estão no Oriente Médio
(Arábia Saudita 25%, Iraque 11%, Irã 8,7%, Emirados Árabes
9,5% e Kuait 9,4%). Mas, por enquanto, o Congresso americano não
tomou nenhuma medida preventiva. Alguns dizem que o petróleo
extraído do Alasca será suficiente para o consumo americano,
mas o certo é que, agora, se o preço do barril aumentar
ainda mais, provavelmente haverá um efeito dominó na
economia mundial.
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Segundo economistas americanos, apenas US$ 10 de aumento por barril
acarretaria em um prejuízo de US$ 120 bilhões aos cofres
americanos.
Na guerra do Golfo, o aumento do petróleo empurrou os EUA
para uma recessão. O presidente do Fed (Banco Central
americano), Alan Greenspan, afirma que não haverá impacto do
preço do barril na economia americana, a não ser que as
“hostilidades se prolonguem”. Segundo o analista Lawrence
Goldstein, do grupo americano Pira, não há motivos para
preocupação porque a economia americana está mais estável
e a Organização dos Países Exportadores de Petróleo
(Opep),
que a Casa Branca vê como um cartel, prometeu em reunião no
mês passado no Japão que irá controlar o preço do produto.
Até agora, é a Arábia Saudita que faz a ponte EUA-OPEP, mas,
depois do 11 de setembro, pelo fato de 15 dos 19 terroristas
serem sauditas, discute-se nos EUA se a Arábia Saudita é
amiga ou amiga-da-onça. Os sauditas cederam suas bases
militares para os americanos na guerra do Golfo, mas é pouco
provável que repitam o gesto agora. Mas o que a corrupta
monarquia saudita, assim como outros mandatários do Oriente Médio,
realmente temem é que os EUA, que sempre fizeram vista grossa
aos regimes repressivos com petróleo, abram o precedente de
depor governos que não lhes agradem. A maior parte dos países
árabes aponta o conflito entre Israel e os palestinos como o
principal assunto a ser tratado na região. Saddam sabe disso:
em abril deste ano, ele suspendeu por um mês as exportações
de petróleo para demonstrar “solidariedade” aos
palestinos em luta contra o governo do premiê Ariel Sharon.
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